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Pandemia em SP está mais grave que em março, quando Doria decretou a fase vermelha

Hoje, com todos os setores funcionando quase normalmente, o número de pacientes internados é 23% maior e a média diária de mortes cresceu 99%, comparados com dois meses atrás

Passadas três semanas do início da fase de transição da quarentena, que libera o funcionamento de todo o comércio e os serviços, além de academias, teatros, cinemas e escolas, a situação da pandemia no estado de São Paulo está mais grave do que quando o governador João Doria (PSDB) anunciou o início da fase vermelha, em 3 de março.


Naquele momento, o discurso tucano era de que havia uma situação iminente de colapso na saúde e que as restrições eram necessárias para conter o avanço da pandemia. Hoje porém, com todos os setores funcionando quase normalmente, o número de pacientes internados com covid-19 é 23% maior e a média diária de mortes cresceu 99%, em relação àquele momento.


Após ser pressionado por um grupo de empresários, que disse que não vai aceitar novas restrições, o governo Doria tem reiterado o discurso de que a situação da pandemia está melhorando continuamente. Porém, a comparação é sempre feita com o pior momento da pandemia, entre o final de março e o início de abril.


E o principal dado utilizado para assegurar isso é a taxa de ocupação de leitos de terapia intensiva. Naquele período, São Paulo chegou a registrar média diária de 3.399 internações por covid-19, mais de mil mortes e ocupação de unidades de terapia intensiva (UTI) acima de 90% em todas as regiões do estado.


Melhora artificial

No entanto, o número de leitos de UTI para pacientes com covid-19 cresceu muito desde o início do ano. E chegou a 14 mil no pior momento da pandemia, após várias expansões. Hoje, são aproximadamente 12.800 leitos de UTI covid-19, ou seja, 37% a mais do que havia quando Doria decretou a fase vermelha. Para o infectologista do Hospital Universitário da USP, Gerson Salvador, usar a disponibilidade de leitos para internação como um parâmetro de controle da pandemia, é um equívoco.


“Está errado. Até porque, é possível mexer no denominador, o número total de leitos, fazendo a taxa de ocupação cair artificialmente. Foi necessário aumentar a quantidade de leitos, de fato, só que esse aumento de quantidade não veio acompanhada necessariamente de aumento de qualidade, de atenção, tanto é que nós temos taxas altas de letalidade entre os pacientes que estão internados”, explicou Salvador.


Dados do projeto UTIs Brasileiras, da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), que acompanham a situação de 21.994 leitos de UTI para pacientes com covid-19, mostram que ter uma grande quantidade de leitos não é uma garantia de sobrevivência que permita deixar a contaminação descontrolada. Segundo a Amib, a mortalidade de pacientes com covid-19 em UTI é de 55,7% na rede pública e 31,5% na rede privada. Entre pacientes intubados, as taxas pioram: 74,6%, na rede pública, e 63,7%, na rede privada.


Internações

Além disso, embora a taxa de ocupação de UTI tenha caído nas últimas semanas, o número de pacientes internados com covid-19 hoje, em São Paulo, é 23,33% maior do que o que havia quando Doria decretou a fase vermelha, no início de março. Considerando apenas pacientes que estão em UTI, a diferença é ainda maior: 29,69%.

Também está maior hoje a média de pacientes com covid-19 que são internados por dia. Eram 2.006 por dia, em 3 de março. São 2.276 hoje, sendo esse o pior número em 19 dias, já indicando uma nova escalada no número de internações diárias.

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